Um crime, duas vítimas e uma lição | Salim Schead dos Santos

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Matheus Lessa , jovem de 22 anos,  morava em Guaratiba, bairro da zona Oeste do Rio de Janeiro.  Levava uma vida normal  ajudando seus pais no mercadinho da família  durante o dia e frequentando a faculdade de Psicologia  à noite. A região,  segundo a Wikipédia,  possui  uma “população predominante de classe média baixa apresentando, entretanto, alguns grandes casarões e sítios de alto padrão, em geral destinados a veraneio além de já possuir também algumas pequenas favelas.” Ficou famosa porque Burle Marx, o paisagista internacionalmente reconhecido, morou na região de 1973 a 1994  e onde era sua residência, hoje é um centro de estudos de paisagismo, de botânica e de conservação da natureza. Mas não foi por esse fato que Guaratiba virou manchete. E sim por  um assalto à mão armada que teve como vítima fatal, o jovem Matheus, que para salvar a mãe colocou-se   entre ela e o assaltante. Esse ato de heroísmo, de amor incondicional, causou uma  revolta profunda não só dos parentes e amigos, mas de todos aqueles que tiveram conhecimento dos fatos e reclamam uma punição exemplar para o latrocida. Mas ao lado dessa tragédia, um drama com menor intensidade mas não menos importante, se desenrolou. No dia seguinte, a polícia prendeu o jovem Leonardo Nascimento, de 26 anos, por ter sido reconhecido pela mãe da vítima como um dos assaltantes, embora ele jurasse inocência. Seu pai, Jorge Benjamin, iniciou então uma árdua missão para  provar a inocência do filho. Começou por reconstituir os passos de Leonardo durante o dia em que teria havido o assalto. E após muitos esforços conseguiu provar, utilizando-se da câmara de segurança de um prédio, que no horário em que teria havido o assalto seu filho retornava para casa e vestia  uma roupa diferente daquela utilizada pelos assaltantes que posteriormente foram presos e confessaram a autoria do crime. Foi uma semana de prisão, e de sofrimento para a família. Mas ao final, Leonardo foi libertado. “Não guardo mágoa” respondeu o pai,  quando indagado sobre o reconhecimento inicial feito pela mãe da vítima, e que levou à prisão de seu filho, afinal, concluiu, “eu ainda posso abraçar meu filho. Ela, infelizmente, não pode mais.”

O autor é Desembargador, vice-corregedor da Justiça do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina e professor da Uniplac.
E-mail: salimschead@brturbo.com.br

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