Na Casa Jorge | Rosa de Lourdes Vieira Silva

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Naquela manhã de dezembro, manhã luminosa, minha mãe abriu a janela do quarto, enquanto o forno de rua ia-se aquecendo com brasas que assariam os docinhos. Levantou a ponta do colchão de palha, puxou uma caixa de papelão onde o meu pai guardava rolos de moedas embrulhadas em papel, féria da nossa venda. Sentou-se na cadeira da varanda e me entregou algumas para eu ir à Casa Jorge comprar uma toalha riscada a ponto-cruz para ela bordar. A mesa da sala estava precisando… Depois, tornou a guardar a caixa. Era ali a nossa poupança. Magricela, nos meus nove anos, tranças com um laço de fita vermelha, vestido xadrez, meias brancas que os sapatos de fivela iam engolindo enquanto eu andava, moedas na bolsinha de pano, eu fui pela Rua Camboriú. A saudade estala!

Se eu não era a Branca de Neve, no meu faz-de-conta, era a Chapeuzinho Vermelho no caminho do bosque, ou o leão que se propunha a libertar o ratinho. Contando os passos, sem imaginar o que ia dentro de mim, ou que, soltando os braços, poderia voar alto como o bem-te-vi que passava. Sentia-me no meu mundo particular onde nada era impossível, especialmente EU. Pensava em ter uma biblioteca. Ora, que ideia!…

De longe, via a D. Querida. que vinha sorrindo… Quando se aproximou, deixou-me sentir a sua felicidade: havia comprado um rádio para escutar o “Repórter Esso”, o “Jararaca e o Ratinho”, a “Pepinela e o Silvino Neto.”

Os gostos e desejos variam. E como variam, meu Deus.

De vez em quando, eu ouvia a voz da minha mãe: “Compra uma toalha bem bonita de ponto-cruz e pede à caixeira para escolher as cores de linha.”

Cheguei à Casa Jorge, na Hercílio Luz, casa de armarinhos, e me deliciei, mais uma vez, com o barulho das tábuas largas do assoalho. O Jorge andava de lá para cá, supervisionando e estendendo a palma da mão: “Quanto paga?” Admirei as peças de “fazenda”: voil, tafetá, chita, riscado, expostas no meio da loja. Num armário, as toalhas riscadas, cheirando a benzina, carretéis, meadas de linha, bastidores e dedais. Bastidor é uma espécie de caixilho de madeira de formas variadas, onde se prende e se estica o tecido sobre o qual se vai bordar. Dedal é um artefato oco e cilíndrico, de metal, ou marfim, com que se cobre a ponta do dedo ao costurar a fim de protegê-lo da picada da agulha. Num grande armário com portas de vidro, bonecas de papelão, e as modernas de celulose; pó-de-arroz “Lady”, rouge, batom, esmalte.

As caixas de sabonete, quando vazias, usávamos para guardar meadas de linha, lápis, borracha, pertences que ficavam perfumados por muito tempo.

Mas eu gostava mesmo era do espaço dos livros de literatura infantil. Ali eu ficava: era Perrault, Andersen, Irmãos Grimm, Monteiro Lobato, Viriato Correia. Estes enriqueciam os meus “faz-de-conta.”

Naquela manhã, ali estavam “A Pétala de Rosa”; “O Príncipe Encantado”; o “Chapeuzinho Vermelho” e outros. Fiquei apreciando. Nem pensava em toalha, em ponto-cruz.

Pedi ao Jorge para ver uns daqueles livros.

-Não boto livro na mão de guri pequeno. Só se quiser comprar…

Mas o pequeno rolo de moedas não dava para tanto.

Nisso, senti um toque no meu ombro:

-Gosta de ler?

Olhei, e só tempos mais tarde descobri que aquele era o Juventino Linhares, um grande escritor itajaiense.

-Gosto, sim.

-Escolha um.

-O “Soldadinho de Chumbo” – eu lhe disse.

Ele mandou o Jorge me entregar aquele livro, enquanto tirava um cigarro da carteira, cigarro Arizona.

Li-o várias vezes, quase o decorei. Lia nos dias de chuva lá no sótão da fazenda.

Em 1997, no livro “O que a memória guardou” – crônicas daquele ilustre jornalista, guardei, na minha memória, o que disse sua filha Márcia Valéria na apresentação da obra do seu pai: “A nossa casa era um apelo constante à leitura. Livros, revistas e jornais eram encontrados em todos os cômodos. Ler, para ele, era um prazer. Era vida.”

Feliz daquele que sabe repartir cultura.

O ler, para mim, passou a ser vida também.

Hoje, tenho na minha estante: “O Soldadinho de Chumbo”, firme, que o tempo não conseguiu fazê-lo vítima, nem diminuir a sua qualidade literária.

A autora é escritora e sócia fundadora da SOAMAR.

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