Imutável | Diene Paula Figueiredo

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Lembro-me do meu professor de biologia falando: – você é o que é.

Sempre estudei em escola pública, e posso afirmar que tive professores maravilhosos e que cada um deles deixou sua marca em minha memória mas confesso que alguns me marcaram de uma maneira mais profunda ou por seu desempenho em sala de aula ou por sua personalidade cativante (ou não), posso com certeza incluir na lista de professores marcantes o meu professor de biologia o professor Gerson (os amigos de escola concordarão).

O professor Gerson era de uma calma quase inabalável em sala, brincalhão, divertido extremamente comprometido com o saber, inteligentíssimo, sabia transmitir o conteúdo como ninguém, tinha o dom de ensinar e gostava disso, não era chato com a ordem da classe nos deixava conversar dentro de um limite é claro, não nos enchia de trabalhos e tarefas para o fim de semana, mas contava rigorosamente todo bimestre os vistos que dava no caderno diariamente, cobrava postura em sala de aula, educação, respeito e princípios. Como ele foi também professor da minha mãe ele sabia bem quem eu era e sempre passava o relatório para ela, nunca, mais nunca mesmo o vi falar mal de um aluno, mesmo que esse o infernizasse durante todo o ano letivo, se ele precisava dizer algo, lhe dizia ali na sala mesmo, na frente de todos e pronto, na real/ oficial.

Naquele ano eu decidi que queria ser skatista, era moda entre os adolescentes da época aquele visual bem despojado descontraído (largado e feio mesmo) calças largas e camiseta preta de banda de rock (chegava a cheirar o pano queimado no verão) com um tênis cano baixo de solado branco que Deus me livre, usou- se tanto que posso garantir que ele foi responsável pela aposentadoria precoce de muitos designers de moda devido à fama que esse modelo obteve, então, para o desgosto da família eu também queria entrar nessa moda, carregava um skate desses que se vende na rodoviária mesmo, e nem sabia andar nele e pior, tinha era medo até de tentar (sempre fui cagoninha), mas mesmo assim andava com ele para cima e para baixo preso nas alças da mochila verde militar que eu tanto adorava como se eu fosse a próxima grande revelação das pistas de skate ou o próprio Bob Burnquist de saias. Um dia eu fui para a escola com uma calça jeans cinco vezes maior que eu (mentira oito vezes) e a camiseta do uniforme e os famigerados tênis (se tivesse emoji aqui seria aquele dos olhinhos revirando) e meu querido professor Gerson ao me encontrar no corredor da escola, me olhou de cima a baixo e disse: – sua mãe sabe que você saiu assim de casa hoje?

O professor Gerson sempre foi um exemplo na vestimenta, de calça social com aquele vinco perfeito e camisa bem passada com seus sapatos devidamente brilhantes, conservador até no corte de cabelo impecável.

Eu fiquei sem resposta, os colegas é claro tiraram sarro (não dava processo e nem causava trauma psicológico) o resto da semana, nessa época era natural e saudável, nos fortalecia e nos ensinava que até o ridículo tem um limite, (alguns se lembram até hoje né Ronaldo) eu, é claro passei a aula toda maquinando o que aprontar na próxima semana para dar o troco.  E assim eu resolvi aparecer na aula do professor Gerson vestida exatamente como ele, calça social e camisa bem presa e alinhada na esperança de que a minha tentativa de cópia fosse incomoda – lo, quanta inocência a minha, como meu pai dizia: – na escola que você estuda, eu já fui diretor, e é claro que o professor Gerson também.

Fiquei como de costume, no mesmo lugar do corredor a espera dele e o cumprimentei (nessa época adolescente sabia o que era isso) e o mesmo ao me ver me olhou novamente de cima a baixo e com toda paciência que sua profissão exigia falou:- sua mãe sabe que você saiu assim de casa hoje?  Eu imediatamente respondi a ele com aquele ar de arrogância típico da “aborrecência”: – Ué professor não gostou dessa roupa também, como o senhor pode me criticar se eu estou vestida exatamente como o senhor? E ele novamente (emoji revirando os olhinhos) responde dando risada: – Exatamente, eu sou um senhor do sexo masculino, você não, você é o que é e nada pode mudar isso.

Nesse nosso novo mundo, as percepções de cada um sobre o que se é, andam digamos um tanto confusas, homem querendo ser mulher, mulher querendo ser homem, homem que vira mulher em relacionamento com outra mulher que virou homem, (héteros, homo ou bi?) mulher que quer ser homem em relacionamento com outra mulher, (hétero ou lésbica?) homem que vira mulher em relacionamento com outro homem (hétero ou homo?) homem que era mulher engravida de sua parceira que era homem e virou mulher, (what?), as siglas e nomes estão cada vez maiores para designar algo confuso que não se enquadra em nenhuma categoria e essa mesma categoria não enquadrada, busca freneticamente o seu lugar e ter seus “novos” direitos reconhecidos constitucionalmente sendo que, os mesmos já estão garantidos, pois somos todos ou homens ou mulheres, e as leis se aplicam a todos sem distinção de sexo, querem ter privilégios que nem mesmo eles sabem bem como definir, porque são tantas as variações dentro desse mundo que, correm o risco de serem preconceituosos com eles mesmos.

A questão é que, se você nasceu com um pênis você é um homem, e o que você pensa a respeito disso não vai mudar esse fato, sua roupa e o bloqueio da puberdade, a ingestão de hormônios feminino/masculino não vai te tornar uma mulher/homem e fazer com que sua próstata vire um útero e seus testículos virem ovários, assim como se você nasceu com uma vagina você é uma mulher e nada na medicina (pelo menos até o dia que eu escrevia este texto) pode mudar isso, o fato de eu querer que minha nota de dois reais vire uma nota de cem reais porque me sinto melhor assim, não a torna uma nota verdadeira de cem reais, você pode se designar como quiser homossexual, heterossexual, bissexual, transexual, lésbica, gay, transgênero, drag queen, unicórnio, duende, fada, avatar, marciano, borboleta, veado, mariposa, sereia, odalisca, gênio da lâmpada, Mickey, Minnie, princesa Elza, diva, girafa enfim, isso não muda o fato de que se você nasceu com um pênis você é um homem e se nasceu com uma vagina é uma mulher, você pode arrancar, cortar, costurar, dobrar, enrolar, fazer um origami, virar do avesso, mutilar, pintar de roxo, tirar, esfregar, esticar, diminuir, aumentar, colar purpurina, encher, esvaziar, esculpir, modelar, deixar crescer ou cortar, se vestir ou se portar, nada disso muda o fato de que se você nasceu com um pênis você é um homem e se nasceu com uma vagina é uma mulher.

É meu caro professor Gerson mais do que nunca eu tenho certeza que, você é o que é e nada pode mudar isso.

Por isso não é necessário uma nova lei, não é necessário criminalizar a homofobia, muito antes de você se designar o que quer que fosse você já fazia parte de um todo, (a menos que você não se considere um ser humano) não se excluam, não se dividam, não se isolem não se separem ainda mais da sociedade em busca de um ideal desnecessário, não precisamos criminalizar a homofobia nem a gordofobia nem a disforia ou o que quer que seja, porque essa lei já existe você esta tão protegido e amparado quanto eu, quanto seu pai, sua mãe, o vizinho, a secretaria do dentista e blá, blá, blá existem leis que protegem as mulheres, e mesmo assim as mulheres deixaram de ser agredidas por causa dela? Deixaram de sofrer preconceito por causa dela? Deixaram de ser abusadas psicologicamente por causa dela? As mulheres podem andar sozinhas tranquilamente à noite por causa dela? Existem leis contra o trabalho escravo e infantil, isso impede que pessoas sejam enganadas e covardemente escravizadas? Todas as crianças estão nas escolas e brincam saudavelmente? E as leis contra a corrupção? As leis só funcionam para homens de bem, os agressores, os preconceituosos, os violentos não ligam para as leis, eles continuam da mesma forma, eles estão protegidos pela impunidade, precisamos é cumprir o que já existe, isso sim vai privilegiar a todos sem distinção, perante a lei somos todos iguais temos todos os mesmos direitos e deveres assegurados pela constituição.

Meu pé de limão não produz morango só porque eu não gosto de limão, e fazer uma lei não vai mudar isso, você é o que é!

A autora é formada em Pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), licenciada em Normal Superior, pós-graduada em Educação Especial com ênfase em “Atendimento às Necessidades Especiais” pelo Instituto de Estudos Avançados e Pós-  Graduação (ESAP) e membro do Movimento Conservadorismo Estudantil (MCE).

Quer escrever para a autora? E-mail: 
dienepfigueiredo@gmail.com

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