A lama | Diene Paula Figueiredo

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Eu e minha irmã temos uma diferença de sete anos de idade, ela mais nova e mais bonita eu mais magra e mais inteligente (ela vai me matar ao ler isso), apesar da diferença ainda aproveitamos um tempinho à infância uma da outra e nos divertimos muito, nunca fomos crianças levadas, uma prova disso é que agora já adultas ainda conservamos nosso exoesqueleto intacto, eu a mais velha (nem tanto assim) nunca fui de fazer grandes traquinagens (exceto quando botei fogo na peruca da minha avó, mais essa já é outra historia) os poucos acidentes que nos ocorreram foram mais devido à falta de atenção ou teimosia do que na pratica da traquinice.

Quando pequeno todo domingo era dia de almoço na casa dos avós, reuníamos a família chegávamos mais cedo para ajudar na cozinha, os homens em volta da churrasqueira improvisada com lajotas velhas, um joguinho de canastra e nós crianças passávamos o dia a brincar na terra vermelha, lembro com saudade como era gostoso passar o dia a rolar na lama fresca até não restar mais nada da roupa para sujar, (e as mães não piravam com isso) comer com a mão suja de barro mesmo, (o que não mata, engorda) beber ki suco de groselha, tomar banho na bacia ou no tanque antes de ir para dentro e realmente tomar um banho decente, pois com a quantidade de terra era impossível tirar só no chuveiro, realmente era preciso uma boa mangueira para ajudar.

Eu e minha irmã passávamos o dia a fazer bolinhos, docinhos e mais coisinhas de terra e a importunar os adultos para que eles provassem das nossas guloseimas de mentirinhas, a procurar minhocas para jogar na minha tia que tinha asco delas (acho que ela fingia só para nos divertir) a cavar buracos enormes e encher de água para mergulhar as bonecas na piscina de lama,  penso em quantos brinquedos estão até hoje perdidos enterrados nos fundos da casa da minha avó. Era assim não tinha esse negocio de bicho geográfico, de dermatite, de renite, que não pode passar lama no cabelo que resseca que não pode comer de mão suja que dá gastrointerocolite, não pode andar descalço na terra que pega verme (verme? Eu fazia era coleção deles, tomava um chazinho de erva de santa Maria com hortelã e eles já eram) época em que refluxo chamava gorfo mesmo, que intolerância a lactose era só fiofó frouxo, passava logo, o organismo mesmo combatia.

Em um desses domingos, eu e minha irmã brincávamos como de costume quando durante a escavação de uma piscina de lama achamos um buraco incomum no fundo, a curiosidade de criança é fascinante e ao mesmo tempo perigosa, começamos a cutucar o buraco com um pedaço de pau e como nada acontecia resolvemos encher de água, na esperança de fazer chover no Japão (a inocência é uma dádiva), quando enchemos o buraco de água saiu de lá uma cobra cega enorme e pulou para fora no terreiro, eu comecei a gritar, minha irmã a chorar (mais pela minha gritaria do que pela cobra) os adultos já correram ao nosso socorro, minha mãe arrastou a gente de lá e meu avô matou a cobra com a ajuda do cachorro que farejou aonde ela havia se escondido, e nada de grave aconteceu.

Quando me lembro dessa historia, consigo perfeitamente enquadra la em nosso cenário político atual, podemos ver claramente como nosso país se encontra em um buraco fundo que foi cavado por anos de governantes corruptos que pouco se importam com os pobres, como estamos deitados em cima de ninhos de cobras prontas para emergirem e nos atacarem, e uma grande parte das pessoas não consegue ver isso tamanha é a ardilosa mentira e manipulação feita principalmente através da mídia suja que noticia qualquer coisa que venha favorece la, assim como ocorre na Venezuela, um país no fundo do poço onde a população com água até o pescoço virou comida para cobras.

Nosso Brasil gigante pela própria natureza e nosso povo heroico de brado retumbante sendo levado para a morte nos ”desastres naturais” (que não são naturais e sim crimes), e ficando soterradas pela lama que escorre de barragens construídas sobre os pilares da corrupção da ganância e da impunidade, deixando um rastro de devastação tanto no meio ambiente como em seu povo já tão judiado e desacreditado.

Por isso precisamos ficar atentos, mesmo na segurança de nossos quintais e na inocência de uma piscina de lama para bonecas podemos estar cercados por cobras que apesar de cegas enxergam muito bem aonde picar, e sabem exatamente a hora de saltar e procurar outro covil, sejamos como cães farejadores sempre alertas para não permitir sua fuga, (para lugar algum, inclusive outro país) cortando sua cabeça com golpe limpo e seco sem deixar brecha para o bote.

Que o meu Brasil de amor eterno, seja um símbolo de justiça e honestidade, que seu povo tenha orgulho do lábaro que ostentas estrelado, e que o verde-louro dessa flâmula nos traga além de paz no futuro e glória no passado, um presente de conquistas e mudanças pertinentes firmadas pela clava forte da justiça. Somos brasileiros não fugimos da luta nem tememos a morte enfrentando a dia após dia na ida para o trabalho, para a escola, para a faculdade com braço forte, vislumbrando com esperança o tal futuro de grandeza.

A autora é formada em Pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), licenciada em Normal Superior, pós-graduada em Educação Especial com ênfase em “Atendimento às Necessidades Especiais” pelo Instituto de Estudos Avançados e Pós-  Graduação (ESAP) e membro do Movimento Conservadorismo Estudantil (MCE).

Quer escrever para a autora? E-mail: 
dienepfigueiredo@gmail.com

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