O alto custo da precipitação

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Não são poucas as críticas aos governos brasileiros em relação ao modelo de enfrentamento adotado em durante o desafiante período destacado pela pandemia que se instalou em todo o mundo. E, de fato, muitos destes perderam a grande oportunidade de se diferenciarem do resto do país.

Ao invés de terem sacrificado, em partes, a economia, poderiam ter se valido das mais variadas características micro e macro ambientais, das diferenças climáticas, do aspecto geográfico, principalmente das densidades demográficas, para implementação de estratégias híbridas, que atendessem melhor cada cenário setorizado.

Faltou diligência da parte dos governantes e dos seus staffs em solicitar levantamentos e  estudos que envolvessem desde fatores epidemiológicos como a ambientação, o clima, os aspectos econômicos, culturais, entre outros, restando demonstrada a ineficiência com que a maioria lida com os dados e o quanto o Brasil ainda engatinha quando o assunto é a construção de matrizes norteadoras confiáveis para eventos catastróficos, com raríssimas exceções.

A maioria demonstrou alto grau de insegurança em usar qualquer estratégia que pudesse sugerir a inobservância do que vinha sendo a experiência narrada costumeiramente pela imprensa, e que ecoava, a todo o momento, as sugestões da Organização Mundial de Saúde (OMS), destarte o alto grau de negligência, do ponto de vista global, em relação ao que ocorria no grande centro chinês, que reagiu tão tardiamente quando os contágios ainda se mostravam em proporções menores.

Diversos estudos foram expostos por todo o mundo. Alguns encetaram a experiência do Imperial College como a mais apropriada, e desconsideraram, com extrema negligência, os aspectos da temporalidade de aplicação do mesmo, que sugeria mais de duzentos dias para sua validação. Por outro lado, não menos importante, destacava que, nos casos de isolamento, era preciso considerar que, quando submetidos a uma reserva de três meses, por exemplo, assim que as atividades fossem retomadas, os riscos de alto contágio e de sobrecarregar o sistema de saúde poderia ser exatamente igual ao apresentado antes de bloquear a economia por três meses. O estudo apresentou, inclusive, um gráfico fazendo essa referência.

Diante da má qualidade de informações, tanto por parte da OMS, como por parte da imprensa, que inexplicavelmente, deixou de lado o espírito construtivo para se limitar a críticas as mais diversas, ecoando, mínima e sistematicamente, a orientação que era dada, num âmbito geral, muito mais a países considerados de primeiro mundo do que àqueles em desenvolvimento, potencializando verdadeira batalha de informação. Antes tivesse silenciado.

Na maioria das vezes, embora carreassem o interesse pelo embasamento científico, não raro, invalidaram, frontalmente, outras nuances igualmente científicas, não menos importantes a respeito de clima, sazonalidade, efeitos de imunização de rebanho, os aspectos econômicos globais, a importância das atividades físicas, das atividades físicas, do cuidado com a saúde mental, da psicossomatização e dos próprios cuidados com a imunidade pela ausência de sol.

Como se pôde ver até aqui, muita ciência foi anulada em nome de uma ciência única, e muitos problemas criados e que sequer existiam, a exemplificar, as próprias crises de governo, atribuídas, em grande parte, pela dualidade do ‘abre’ ou ‘fecha’ que se tornou lema de guerra informacional, como se a proposta tivesse de ser uma escolha tão singular, e não pudesse ser realizada de forma híbrida, estratégica e setorizada.

A única demonstração dada pelos estados até aqui é a de que a maioria não conhece o seu habitat. Muitos preferiram relegar a terceiros a responsabilidade de realizar estudos, diante de tantas universidades e mentes prodigiosas e dispostas a encontrar, junto com as autoridades constituídas, caminhos para o nosso Brasil. Optaram, em grande maioria, por tratar o tema com o minimalismo promovido pela OMS, ao meu ver, extremamente irresponsável, tendo em vista que, por várias vezes, contradisse a si mesma.

Muitos poderiam ter adotado estratégias que combinassem isolamento vertical e horizontal, e, para casos mais críticos, o lockdown total. Ainda que, para todos os casos, o distanciamento fosse recomendado, assim como os cuidados com as aglomerações, a higiene, as devidas orientações a respeito de um problema que é de nível mundial. Óbvio que temos estados que não há qualquer possibilidade de flexibilizar tanto o isolamento, mas, para a maioria deles, essa possibilidade poderia ser validada.

Muita coisa deixou de ser observada em meio às brigas geradas pela pandemia e pela necessidade de se ter vencedores num cabo de guerra completamente descabido. Deixou-se de observar, por exemplo, que tipo de condicionantes sugerem um número de ocorrências mais acentuadas em áreas próximas de praias. A maioria parece ter sido quase que hipnotizada pela proposta apresentada pela OMS.

Tratando-se da Região Sul do país, um agravante ainda maior. Embora os governos tenham agido de forma contida, ainda com as primeiras informações acerca de pandemia no país, alguns estados, a exemplo do Estado de Santa Catarina parecem reconhecer o quanto se precipitou em relação ao isolamento, deixando de aproveitar os benefícios que o calor da estação oferecia para incrementar os números da imunização de rebanho, antes que o inverno chegasse, como orientava o médico Robert Wong.

Ele chegou a ser censurado em emissora de televisão quando iniciou as críticas a respeito da proposta de isolamento sem observância do contexto, principalmente, relativos ao aspecto climático, no qual sempre foi mencionado nas grandes pesquisas, norteadoras de ações as mais diversas, envolvendo aspectos sobre o contágio pelo novo coronavírus, a exemplo dos dois mais citados, realizados pelas universidades de Harvard e pelo britânico Imperial College, respectivamente.

Ambos eram determinados quanto à proposta de que, se realizado isolamento social, o tempo de imunização de rebanho seria retardado e, retomadas as atividades, haveria novo risco de surto e, consecutivamente, de colapso do sistema de saúde, do mesmo modo como ocorreria, sem o fechamento. Os fechamentos não foram bem compreendidos, pois, a administração destes deveria ser encampada, pura e exclusivamente, para montar estruturas adicionais de atendimento, entretanto, poucos foram os estados que tiveram a oportunidade de abrir um único hospital de campanha sequer durante esse momento.

A maioria esteve mais preocupado com os processos licitatórios. Este, sim, correndo a todo modo. Não se pode dizer que todos foram injustos, mas, se bem apurados, é certo que encontrariam neles muito mais irregularidades, a exemplo do que bem apresentou a reportagem realizada pelo SBT Repórter, pelo jornalista Roberto Cabrini e que culminou na denúncia do governador do Estado do Amazonas, e em pedido de impeachment protocolado. Ou, no que fora narrado pelo The Intercept, relativamente ao estado de Santa Catarina, envolvendo, também, a compra de equipamentos ocorrendo de forma anômala.

Infelizmente, para o bem ou para o mal, as decisões já foram tomadas, a economia já segue combalida, muitos já perderam os seus empregos. Resta, agora, o olhar atento ao período que se aproxima e que, embora advertido pelas autoridades estaduais e pelo ex-ministro Mandetta como o ‘pico’ – que nunca chegava – em fevereiro, depois em março, ele deve mesmo se vincular ao calendário sazonal epidemiológico que detém nos seus registros os picos de síndromes respiratórias graves no tempo médio com início na semana 18, estendendo-se até a semana 25, com maior incidência nas semanas 21 e 22. Seguindo a tendência dos anos anteriores, esse também deve ser o período mais crítico para outras regiões, como o Centroeste e o Sudeste, configurando-se como período de pico nacional. Em 2019 já ocorreu desse modo, não há nenhuma novidade até aqui.

O problema, de âmbito global, não parece, nem de longe, resumir-se ao fato de abrir ou não abrir o comércio, mas vai muito além disso, com a necessidade de uma aplicação muito mais complexa, e de determinação ainda mais convicta a respeito dos estudos que devem ser incorporados em qualquer momento de desordem. Diante de um cenário que pode se estender por até mais de um ano, o simples caminho da fuga não terá qualquer condição de se sustentar. Portanto, é preciso mais dedicação para alternativas diferentes e que possam minimizar, ainda mais, a exposição.

Por isso, e já lamentando pelo tempo perdido durante todo o verão, a necessidade de encampar a estratégias híbridas que mesclem isolamento vertical e horizontal, até porque, o Brasil conhece a sua realidade e sabe que, quando o alimento faltar nas mesas de alguns, não há qualquer possibilidade de mantê-los aquartelados. Até aqui, a estratégia funcionou, e de fato, salvou vidas. Os índices de mortes por milhão de habitantes são baixíssimos em diversos estados, mas fica a pergunta: o que adiantou fazer isolamento no verão, abater empresas, desempregar pessoas, se agora, no inverno, é que o problema, de fato, se apresenta com os ares tenebrosos que assolaram o hemisfério norte?

Com a palavra, a Organização Mundial de Saúde, a imprensa e os governadores que, reforçando apenas uma alternativa, deixaram quase que nenhuma opção para o enfrentamento nesse ciclo caótico que já mostra os seus dentes. O frio chegou e, com ele, a verdadeira realidade do que significa a pandemia do Covid-19. Agora, sim, valeria o “fique em casa”, mas talvez seja tarde demais.

“O grande segredo da nossa doença oscila entre a precipitação e a negligência.”
Johann Goethe

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