Com tom subjetivo, ministro Sérgio Moro coloca atuação presidencial sob suspeição

Entre as suas falas, o ministro da Segurança Pública, Sérgio Moro, ponderou acerca da preservação das autonomias das instituições em detrimento aos interesses de qualquer presidência

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O dia 24 de abril foi um dia marcado por tensão em todo o Brasil. Isto porque, independente de posicionamentos políticos, um assunto importantíssimo entrava em evidência, depois de diversas especulações por parte da imprensa – que vem errado muito, diga-se de passagem – falando acerca da possível exoneração do diretor geral da Polícia Federal e, que por consequência, levaria também, a demissão do então do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. No início da manhã, a presidência dizia, em tom irônico, e sem responder a nenhum questionamento da imprensa: “vocês erraram tudo”. Quando, contrariando a fala do presidente, na verdade, acertaram.

As redes sociais e a ampliação das manifestações populares na política brasileira

Como demonstração da nova politização no país, os brasileiros vivenciaram, hoje, pelo menos, três momentos distintos: o que antecedeu o discurso do ministro Sérgio Moro, o ato propriamente dito, e os momentos imediatamente posteriores a esse discurso. Estes intervalos fizeram com que as redes sociais disparassem, entre as principais, o Twitter e o Facebook. Entre defesas e manifestações de repúdio, o intervalo das declarações se sucedia pelas participações mais distintas.

Com isso, mais uma vez, o Brasil emite um sinal claro de que os processos eleitorais não serão mais os mesmos. Os graus de interação do cidadão brasileiro, com a interferência direta das redes, tratada como “fenômeno” está mais para novo comportamento sociologicamente admitido, demonstrando ser irreversível e não pontual. Isso talvez justifique, em partes, o interesse de determinados grupos em instituir censuras ou providenciar índices de controle mais apurados a fim de estancar essa previsibilidade. Particularmente, acho improvável.

As manifestações do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro

Entre o anúncio do pronunciamento do ministro Sérgio Moro, cerca de duas horas de espera, que fizeram do brasileiro, considerado o povo mais ansioso do planeta, um tanto mais apreensivo. Isso porque, independentemente de qual fosse a orientação do discurso, quem estaria ali, tem alto preço com a população brasileira, que também lhe saiu em defesa durante várias oportunidades, por questões amplamente noticiadas pela tentativa, da parte de políticos os mais diversos, de estancarem aquela que seria considerada a maior operação voltada a punir crimes de corrupção no País. Moro sempre teve o respeito e o apreço dos brasileiros.

A fundamentação do ser nas argumentações

Como era de se esperar, um discurso planejado, ordenado cronologicamente a fim de ambientar o espectador sobre aqueles que foram os seus feitos pretéritos, já ratificados como popularmente aceitos e reconhecidos por grande parcela dos cidadãos brasileiros, desde o histórico de 22 anos na vida da magistratura a manifestação firme de que, pela vivência e exposição a respeito do compromisso com, nas suas palavras, “as coisas certas”, ancorava suas prerrogativas morais.

Como na maioria dos discursos, em seu segundo momento, dirigiu-se àqueles que o assistiam pontuando, mais uma vez, os seus feitos, desta vez, já enquanto ministro, deixando-se perceber, não simplesmente o grau de comprometimento com as “coisas certas” sugeridas anteriormente, mas, agora, também, fazendo uma autoavaliação daqueles que foram os objetos do seu compromisso. A intenção, mais uma vez, de cravar uma segunda ancoragem de comprometimento, zelo e retidão que fundamentariam o desfecho do seu discurso, desta vez, num tom mais áspero, embora muitas vezes, ditos com sutileza e bem articulados, chancelado pela expertise de magistrado.

A política de boa vizinhança

Moro discorreu, durante várias oportunidades, sobre o bom relacionamento que nutria, ao longo do tempo, no convívio entre ele e a presidência da República. Encetou respeito à hierarquia, pelas decisões e também sinalizou a existência, enfaticamente, de divergências em determinados assuntos, mas não fez distinção a respeito destes, seja por achar inapropriado para o momento, como ele mesmo diria posteriormente ou por não possuir relevância diante do contexto atual.

A preocupação com a receptividade da opinião pública

A preocupação notada pelo interesse insistente de reforçar, enfaticamente, aqueles que seriam os seus bons atos deixa no ar um sentimento de insegurança sensível em relação ao olhar da opinião pública. Afinal de contas, naquele momento, não se podia simplesmente informar a população brasileira a respeito da sua saída, mas “reforçar quem foi, quem era, informar a sua saída, seus porquês e demonstrar as incompatibilidades existentes”. E foi o que transcorreu, na exceção prática do tom subjetivo de algumas das suas falas.

As queixas, ponderações e manifestações explícitas

Entre as principais queixas, agora públicas, o descontentamento de que prerrogativas que teriam sido acordadas, em nível ministerial, não teriam sido plenamente atendidas pela presidência da República. Ainda fundamentado no discurso de fazer as “coisas certas”, demonstrou, nitidamente, a sua insatisfação com a atuação da presidência e sinalizou “insistentes imposições para que questões de cunho pessoal fossem também priorizadas”, desmentiu o comunicado oficial emitido pelo Diário Oficial da União acerca da exoneração do diretor da Polícia Federal e, por fim, externou suas considerações acerca dos pedidos particulares do presidente Jair Bolsonaro a respeito de possíveis relatórios, da parte da Polícia Federal, caracterizando, assim, aquilo que justificaria como uma interferência direta nos serviços da Polícia Federal, contrários, visceralmente, àquela que seria a proposta inicial no acordo firmado entre eles, a partir da sua ótica.

A mensagem subliminar do magistrado

Se proferida com intenções futuras, ou não, não há como se saber neste momento, o fato é que as falas do ministro Sérgio Moro, merecem mais do que uma avaliação apaixonada em relação às prerrogativas das suas mensagens, seja da parte de quem defende o governo federal,  daqueles que o estimam pela sua seriedade e história ou, ainda, àqueles que não têm relação alguma com uma coisa ou outra, mas, justificam as suas defesas políticas pelos temas cotidianos do Palácio do Planalto, atentos, logicamente, a qualquer predisposição em ordenamento jurídico.

Isto porque, em sua preleção, evidencia temas de extrema importância nacional e que, pela sua credibilidade, construída com a interação popular que lhe suportava para a manutenção da Operação Lava-Jato, é forte influenciador destas opiniões. Dito isto e, pela dispensação de apresentações do ministro como sendo um exímio expositor, de retórica apurada, especialista em executar perguntas certas e discorrer, milimetricamente, nos seus despachos, de modo a não se deixar restar dúvidas a respeito de qualquer mensagem interposta, deixou no ar um fio de suspeição, sobretudo por mencionar o Estado do Rio de Janeiro sem aludir, necessariamente, ao que se tratava, especificamente. Subjetividade nunca foi um perfil adotado pelo ministro, esclarecer com riquezas de detalhes, sim.

Credibilidade da presidência posta à prova

A fala atingiu diretamente o governo, que já padece nas mãos da estratégia adotada pelo Congresso, Senado e Câmara, no que tange a esfera da governabilidade, com pancadas recorrentes com a pretensão de estuprar os cofres públicos e provocar incidentes econômicos à União, vide o fatídico Mansuetto. O discurso, no tom em que foi dimensionado, e disposto de artifícios subjetivos, incendeia, ainda mais, a opinião pública, sobretudo a imprensa que, neste contexto, tem ainda mais motivos, desta vez, factuais, para reforçar o trabalho nas suas redações que, não raramente, têm sido enxovalhadas internet afora e confundidas com bunkers oposicionistas, principalmente pela especialidade, exímia, em manchar reputações.

A subjetividade do ministro, ao omitir a que se referia, de fato, o pedido da presidência, insurge em dano maior à governabilidade do que a meras questões de interlocução, incompatibilidade ou quebras de promessas. Nem o ato de mentir, como foi sugerido pelo ministério parece tão contundente como o fio, aparentemente, deixado no ar, de forma proposital, a fim de gerar duplas e triplas interpretações da opinião pública que, logicamente, já se ampara nisso para as suas execrações e linchamentos precoces, nos mais variados graus.

Sutilmente, promoveu sua boa imagem, fundeou sua retidão e capitulou o seu capital político e popularidade, em uma ambientação amplamente bem construída, estratégica, e dimensionada não simplesmente a comunicar, como aparentava nas suas fundamentações preliminares, mas, provocando, diametralmente, o desconforto, a suspeição e inevitáveis conflitos e descrédito a imagem presidencial, sobretudo da parte de quem não fizer análise mais crítica sobre a sutil subjetividade, ampliando as já existentes crises no governo.

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