Escrever sim, mas sobre o quê?

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As vezes olho para o teclado, para as paredes, para o teto, para a foto de Emerson, o filósofo, para o céu estrelado, para minha consciência, e nada vislumbro, nada me inspira, nenhum tema me desafia, me entusiasma, me seduz. Os segundos, os minutos, as horas,  transcorrem e a página mantém-se em branco, as palavras permanecem em estado de dicionário, como dizia Drummond, indiferentes ao meu desespero. E me sinto na situação descrita por Chico Buarque em “Roda Viva”: “Tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu/a gente estancou de repente…” Ah, eis que me sinto estancado, provisoriamente estancado, embora viva num tempo posterior a década de 60.  Poderia falar sobre a emoção sentida naquela  visita a Badenweiller, o vilarejo ao sul da Alemanha onde Anton Tchekhov, o criador do conto moderno, morreu. Mas quem, no momento em que o premio Nobel de Literatura é concedido a Bob Dylan, ainda se interessa por contos, romances , peças de teatro, ou pela biografia daquele médico russo que escrevia contos para sobreviver e ajudar sua família?Poderia descrever  a tristeza que senti por ver aumentar o número de moradores de rua em Paris , em Florianópolis…Ou  criticar o programa “Roda Viva”, que as vezes mais parece uma conversa entre amigos, um bate papo de comadres,uma “roda morta” do que um programa em que os entrevistadores formulam perguntas relevantes,  as vezes  provocantes, aos entrevistados. Sobre a prisão do ex-presidente da Câmara tanto poderia ser dito, e, no entanto, nenhum estímulo tenho para comentá-la, tal era o grau de sua previsibilidade, assim como é previsível que ocorra aquela outra prisão,da qual muito se  especula  mas que aguarda o momento adequado. Eleições, comentários  feitos por meios de comunicação vinculados à partidos, não despertam meu  interesse. Talvez por isso devesse saudar o verão que se aproxima, homenagear as nossas  praias, a nossa “coisa bonita/mais cheia de graça…” o nosso bar, falar das descontraídas conversas de botequim, onde qualquer problema domestico, da cidade, do país é resolvido… Mas agora é tarde, a página acabou, o espaço sumiu, o “tempo passou na janela” só eu não vi…

Salim Schead dos Santos é

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