O doce e ingênuo Quincas

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Foto: divulgação

Um ser humano destituído de qualquer maldade. Comportamento pacífico, humilde e educado. Figura muito querida, embora vítima contumaz de bullying praticado por aquelas crianças e adolescentes em busca de divertimento com pessoas que não se encaixam no conceito de ‘normalidade’ inventado pela sociedade!

Mas afinal, o que significa ser normal? Lembra quando era normal nós, seres humanos, viajarmos na maionese durante a aula, ficarmos inquietos, desligarmos do mundo, fecharmos a cara e rirmos menos de um minuto depois?

Afundarmos na fossa, entrarmos em crise existencial, comermos loucamente, termos dor de cotovelo, sofrermos as dores de existir, nos angustiar, explodirmos de raiva e chorar até dormir?

Sofrer, errar, mudar de ideia e ficar vulnerável sem que isso tudo fosse encarado como um transtorno mental ou como uma anormalidade no nosso bem-estar? Quando o bem-estar necessariamente incluía a existência do mal-estar?

Bons tempos, esses. Transtorno de pânico, TOC, bipolaridade, transtornos alimentares, autismo, déficit de atenção… nos últimos anos e de maneira crescente, estes e inúmeros outros termos da linguagem técnica da psiquiatria passaram a fazer parte das falas cotidianas das pessoas em geral.

O diagnóstico psiquiátrico virou a nossa maneira contemporânea de subjetivar as nossas vivências emocionais. Cada vez mais a gente tem a tendência de conceber os nossos sofrimentos, as nossas paixões, as nossas dificuldades em termos médicos e de organizar a nossa mentalidade sobre estas questões a partir de uma perspectiva médica.

É como se as dores da vida, tão conectadas às nossas emoções e sentimentos, fossem avaliadas como “normal” ou “anormal” pela ciência. Como se a depressão de uma pessoa fosse apenas uma questão de genes e neurotransmissores, e não tivesse qualquer relação com a história dela, com seus conflitos e com a cultura em que ela vive.

Almejar uma vida dentro da normalidade – e completamente destituída da loucura que nos é essencial – parece ser o anseio de uma sociedade bastante inclinada a tomar pílulas que façam desaparecer as dificuldades da vida.

A busca desenfreada por medicamentos contra transtornos mentais tem como pano de fundo a procura por uma normalidade pouco questionada. Quem define a ordem à qual devemos nos adaptar? Não seria essa busca cega pela adaptação à ordem justamente a razão, e não a solução, de tanto sofrimento? A quem interessa a normalização nos dias atuais?

Voltando ao Quincas, ele é uma figura que se confunde com as histórias vivenciadas pelos moradores da região dos bairros Fazenda/Fazendinha, onde mora este personagem que guarda no coração a alma de uma frágil e dócil criança. Perambula pela cidade durante todo o dia, alimentando-se da caridade de muitos que conhecem sua boa alma. A sua predileção, no entanto, são as balas e guloseimas! Ao ganhá-las, sai da sua letargia habitual e podemos ver a felicidade estampada em seu sofrido semblante!

Mas assim como todo ser humano, a paciência de Quincas tem lá os seus limites. Quando o assédio da gurizada extrapola, Quincas não se faz de rogado e, catando pequenas pedras do chão, passa a lançá-las contra seus detratores mirins, e às vezes com acertada pontaria. Mas qual, aí sim a alegria mordaz da rapaziada se acentua, aumentando ainda mais a algazarra em volta do pobre Quincas. Triste sina ser diferente da ‘normalidade’ reinante!

O autor é jornalista.
E-mail: emersonghislandi@gmail.com

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