A Responsabilidade | Diene Paula Figueiredo

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Minha mãe passou a sua infância praticamente em outra dimensão se comparada à atualidade, ela brincava na rua de terra, pois ruas asfaltadas ainda eram poucas, subiam em pés de frutas e passavam a tarde a encher a pança com elas, pés de goiaba, ameixa, laranja, limão, mexerica e manga eram frutas que se achavam em quase todo lugar ,essas frutas nem se achavam para comprar em supermercados e não porque eram caras mas sim porque ninguém iria pagar por elas.  Minha mãe sempre conta de como era bom juntar uma renca de crianças para brincar de salada mista, bets, passa anel, uma das brincadeiras que minha mãe mais gostava era brincar de casinha nessa época não se comprava apetrechos para brincar e entupia as crianças de coisas plásticas desnecessárias, se você queria uma roupa nova para a boneca você fazia, minha mãe adorava fazer roupinhas e vestir sua filha boneca ou moveis com restos de madeira para enfeitar a casinha na brincadeira, ela conta com alegria que brincou de casinha até seus 15 anos (bem mais tempo na realidade, logo vocês vão entender) e nesse tempo isso não era vergonha nenhuma, pois ninguém tinha pressa em crescer e substituir o mundo de terra, fantasia e comilança pelo da responsabilidade e trabalho.

Mas esse mundo de responsabilidade chegou bem antes do que o esperado para minha mãe ela engravidou com 17 anos, nessa época uma mulher grávida era sinônimo de uma mulher casada então vocês pode imaginar o que minha mãe passou para enfrentar os pais e a sociedade, meu avô procurou a família do meu pai e assim se firmou o casamento de dois adolescentes, por isso digo com certeza que minha mãe brincou de casinha por muito tempo ainda, só que agora a boneca era eu.

Tenho tantas lembranças de quando era pequena, de brincar a tarde toda com minha mãe, de casinha, boneca, quebra cabeças, de salão de beleza de desfile de modas, de correr dos lagartos que apareciam no jardim, ou dos sapos que tomavam banho em baixo do tanque de cimento, de correr em volta da casa morrendo de medo dos barulhos que os aviões faziam, e sempre encontrar consolo em seus braços quando eu nem fazia ideia de o quanto tudo isso também a assustava.

Não me lembro hoje de uma única vez em que precisei de minha mãe e ela não estava lá de uma única vez que chorei e ela não secou minhas lágrimas de uma única vez que caí e não encontrei sua mão para me  levantar , uma mulher forte e frágil  que enfrenta as dificuldades de frente com a cabeça erguida pois não deve nada ao mundo e a ninguém, tudo que sou hoje ,a mulher que me tornei , a mãe ,a profissional a esposa devo a minha mãe, tudo que me foi necessário  para viver  feliz e honestamente foi me dado por ela , não consigo até hoje imaginar tudo o que ela passou , sei que foi difícil, muito difícil , mas ela nunca deixou transparecer  seus medos e seus receios.

A responsabilidade hoje tão distante dos nossos jovens, um conceito que se esquece de transmitir, pois é mais fácil e mais rápido fazer a lição para o filho, do que se sentar ao seu lado e ajuda lo, um conceito que se esconde atrás da juventude e dá como desculpa a imaturidade deixamos as crianças crescerem com a sensação que tudo pode ser deixado para amanhã, não tem problema papai fala com a professora, mamãe inventa uma desculpa.

Mesmo com todas as dificuldades e com toda imaturidade de minha mãe isso não a impediu de criar um mundo de fantasia para nós brincarmos dentro do mundo cruel e real que ela enfrentava e foi tão perfeito que ate hoje me pergunto se ele não existiu mesmo.

Porque hoje é tão difícil ensinar nossos jovens a terem responsabilidade porque é tão difícil impedir que nossos filhos tomem decisões tão erradas que lhes marcam para o resto de suas vidas, temos que moldar o caráter de nossos filhos em casa, para impedir que os mesmos sejam enganados lá fora, temos que transmitir bons princípios para que eles não caiam em ilusões do mundo, temos que ser firmes para que eles aprendam a ouvir “não” e continuar a caminhar, temos que ensinar que o trabalho edifica o homem, que a honestidade enobrece, que a religião resguarda e que a educação é o alicerce do edifício do sucesso.

Só assim teremos a certeza de que criamos seres humanos que farão a diferença na sociedade, que transformarão o mundo em um lugar melhor.

Dedico esse texto a minha mãe Rosana.

A autora é formada em Pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), licenciada em Normal Superior, pós-graduada em Educação Especial com ênfase em “Atendimento às Necessidades Especiais” pelo Instituto de Estudos Avançados e Pós-  Graduação (ESAP) e membro do Movimento Conservadorismo Estudantil (MCE).

Quer escrever para a autora? E-mail: 
dienepfigueiredo@gmail.com

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