A exoneração de Sérgio Moro

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Por João José Leal*

Para explicar a demissão de Sérgio Moro, o presidente Bolsonaro armou uma ridícula cena da política nacional. Colocou atrás de si todos os seus ministros em pé, perfilados, em posição de sentido, formando um pelotão de engravatados. Paulo Guedes, destoava completamente da indumentária de seus colegas. Era o único de máscara, sem gravata, sem paletó e, curiosamente, sem sapatos. As autoridades da saúde recomendam, até proíbem aglomerações. Porém, o ministério bolsonariano ali estava desnecessariamente reunido. Afinal, a fala presencial era destinada à população brasileira.

Falando de improviso, que deveria sempre que possível evitar, o presidente Bolsonaro proferiu um discurso desconexo, confuso, marcado por confissões de sinceridade duvidosa, numa tentativa inútil de contestar declarações feitas por seu ex-ministro. Sua improvisada fala transformou-se num tortuoso e mal explicado relato de fatos passados, muitos deles sem qualquer relação com a demissão de um ministro de Estado. Assim, Bolsonaro se referiu a condenações criminais da sua sogra e da mãe desta, por tráfico de droga.

No entanto, as atuais investigações policiais contra parlamentares do seu partido e dois de seus filhos, Jair Bolsonaro deliberadamente omitiu em seu discurso. E são essas as investigações que pretende impedir, trocando a chefia geral da Polícia Federal. Ao menos, pensa que pode interferir no trabalho da polícia, a fim de colocá-la a serviço dos seus filhos e de parlamentares do seu partido. O presidente negou essa sua intenção. Mas, suas improvisadas palavras deixaram escapar, em duas ou três ocasiões, que queria nomear um delegado delegado-geral com o qual pudesse interagir sobre as atividades da PF.

Além disso, diante da investigação criminal contra 12 deputados aliados, mandou mensagem dizendo ao ministro Moro que estava na hora de trocar o Delegado-Geral da PF. Ontem, essa manobra indevida ficou comprovada. Confirmando o que a imprensa tinha informado e contrariando a opinião de seus conselheiros palacianos, Jair Bolsonaro nomeou Alexandre Ramagem, amigo da família, para a Direção-Geral da PF. No entanto, seu obstinado projeto de controlar a PF acabou sendo abortado por decisão do STF, que mandou suspender o decreto de nomeação.

Lamentavelmente, por mais que Jair Bolsonaro tenha procurado explicar, não conseguiu justificar a demissão de um dos seus melhores ministros. Por não concordar com a pretendida interferência presidencial nas atividades da PF, Sérgio Moro pediu exoneração do seu cargo. Deixou o governo com a dignidade e com a consciência de quem fez o melhor possível.

Num tempo de isolamento e máscaras, de doença e morte, com a atividade econômica paralisada, o presidente Bolsonaro pousou de senhor da honestidade. Armou uma cena grotesca para contestar afirmações feitas por seu ex-ministro da justiça. Infelizmente, não falou a verdade. Assim, perde ele a autoridade moral para governar a nação brasileira.

O autor é da Academia Catarinense de Letras. Promotor de Justiça e Professor aposentado
jjoseleal@gmail.com

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